A empresa lhe deve NADA!

Texto de:  Milene Laube Dutra

A empresa lhe deve NADAEssa semana, após conversar com um amigo que estava tendo dificuldades com um funcionário, me veio a inspiração para escrever este artigo. De colocar em palavras o que a vida me ensinou após mais de duas décadas de experiência profissional…e muitas cabeçadas!  Espero que este conteúdo contribua, de alguma forma, para o sucesso em sua trajetória profissional!

Vou começar este artigo de uma forma bem realista, mostrando a relação de trabalho entre empregador e empregado do ponto-de-vista do empregador! Sem rodeios e sem mimimi…

Começa assim: nenhuma empresa tem a obrigação de lhe contratar, muito menos de lhe dar almoço, carro, combustível, celular, vaga de garagem, treinamento, viagens, etc… E você, por outro lado, não é obrigado(a) a trabalhar para esta ou aquela empresa. A empresa para a qual você trabalha – ou vai trabalhar – lhe deve nada além do pacote de remuneração negociado para que você preste os serviços combinados.

 

Obs.: aqui cabe um parêntesis antes que você comece a me julgar e dizer que sou pregadora de uma política de RH desumana, a favor da exploração dos menos favorecidos e tal….o foco deste artigo é o ponto-de-vista do empregador… como ele pensa… justamente para ajudar as pessoas a melhor lidar com as questões do dia-a-dia das relações de trabalho nas empresas e nos domicílios. Não estamos falando de situações de ditadura, países em crise política, econômica ou em situação de extrema pobreza, analfabetismo ou outras tragédias sociais. Também não vamos abordar questões como exploração de menores, trabalho escravo, etc

 

A essência da relação empregador-empregado

Para seguirmos em frente com o ponto-de-vista do empregador, é preciso abordarmos a essência da relação empregador-empregado. Não vou entrar em questões filosóficas nem históricas… apenas práticas.

Pergunta: Por que, nos dias de hoje, uma pessoa física ou jurídica, contrata um funcionário para trabalhar em sua casa ou em sua empresa?

Resposta: Em qualquer relação de prestação de serviços, o solicitante – neste caso o empregador – contrata os serviços de outra pessoa – neste caso o funcionário – para realizar determinado serviço – uma tarefa, um projeto -  porque…

  •  não sabe como realizá-lo: não tem o conhecimento ou as habilidades necessárias,
  •  não tem tempo para se dedicar a este serviço ou seu tempo é melhor investido em outra atividade, ou ainda…
  • porque simplesmente não quer realizá-lo!

… e, portanto, remunera uma outra pessoa que detém conhecimento, habilidade, experiência, ideias,  ”man power” e tempo para realizar o serviço.

E como é que o empregador percebe o empregado? Alguém que oferece seu tempo, seu conhecimento, sua habilidade, suas idéias e seu “man power” em troca de algo de valor: uma remuneração que lhe satisfaça. A contratação dos serviços pode ser pontual ou se estender por um longo período, enquanto a relação for benéfica para ambas as partes.

Na essência…é isso…nada mais. Não é um favor… nem uma obrigação.

Obs.: Há exceções? Claro! Uma pessoa pode empregar outra inspirada/movida por um projeto social, ou para ajudar um amigo “em necessidade”… ou alguém pode se oferecer para trabalhar como voluntário ou em regime “pro bono”. Mas como disse, não é a regra…

Como funciona a “prestação de contas” em uma relação de trabalho?

Todo trabalho envolve objetivos a serem atingidos: realizar algo, de um determinado jeito, em um determinado prazo. Para isso, a empresa remunera o funcionário, através de um salário fixo mensal, comissões, benefícios tangíveis e intangíveis. O pacote de remuneração é apresentado e negociado por ocasião da contratação e pode ser revisto no caso da superação consistente de metas, do funcionário assumir novas responsabilidades,  e/ou por ocasião de uma promoção, cuja decisão é sempre do empregador, com base em seus objetivos de negócios e recursos financeiros disponíveis.

Lembrando: A remuneração é paga para a realização do trabalho… ou seja, não se pensa em aumento de salário ou benefícios para uma pessoa que faz seu trabalho corretamente, não falta, não rouba… ela está ganhando para isso!

Obs.: Note que aqui não estamos entrando no mérito de reposição da inflação, direito a férias ou décimo terceiro salário, questões como contratação PJ ou CLT ou equiparação de piso salarial. Também não vamos entrar em detalhes sobre critérios para a definição de uma remuneração ideal. Nosso foco é na relação básica de trabalho entre empregador e o empregado e as atitudes e comportamentos esperados de cada uma das partes envolvidas do ponto-de-vista do empregador.

A relação de trabalho é uma escolha

A relação de trabalho é uma escolha, de ambos os lados e, como toda escolha,  envolve fatores que devem ser ponderados para uma tomada de decisão e para a construção de um relacionamento profissional construtivo. O empregador vai escolher a pessoa que considera mais capacitada para exercer determinada função, levando em conta desde questões mais objetivas como: ter as habilidade e o conhecimento necessário, já ter exercido a função no passado, ser honesto…como também questões mais subjetivas como “ir com a cara da pessoa”. Da mesma forma, o empregado vai avaliar se quer realizar o serviço nas condições exigidas pelo empregador e pelo valor que o empregador está disposto a pagar. E neste caso, também vai ver se “foi com a cara do patrão” e ponderar sobre os benefícios e seu potencial futuro, caso trabalhe para este empregador por muitos anos.

A empresa não é uma família!

A relação de trabalho entre empregador e empregado, como em qualquer interação social humana, envolve emoções, porém a dinâmica destas emoções é diferente daquela encontrada nas relações afetivas e envolve certas regras que devem ser seguidas para manter a relação de trabalho sempre no plano profissional. Apesar de haver empresas classificadas como “familiares”, em que há uma relação de parentesco entre a liderança e alguns funcionários, a entidade “empresa” não é – e NUNCA será –  uma família para você…mesmo aquelas que escrevem VALORES DE FAMÍLIA no quadro de “visão, missão e valores” da empresa.

Os laços entre empregador e empregado não são de sangue, o sentimento que os liga não é necessariamente de afeto e, muito menos, incondicional ou para toda a vida. Ah, e muito importante, o empregador não paga o salário de um funcionário com a mesma atitude de um pai rico que concede uma mesada ao filho. Há SEMPRE expectativas! Clientes precisam ser atendidos, projetos precisam ser entregues no prazo, metas precisam ser atingidas todos os meses… se você fizer algo muito errado, ou deixar de realizar suas tarefas consistentemente, não vai ficar 1 mês sem mesada… você será demitido! Diferente da dinâmica familiar, erros não são sempre perdoados, as portas não estão sempre abertas e não há concessões “de pai para filho”.

Obs.: Lembra da fábula do Leão e a Raposa (Esopo) em que a moral da história é: a familiaridade pode levar ao desrespeito? O empregador sabe disso!

 A empresa tem que ser justa?

Um outro ponto que merece esclarecimento: o empregador não se sente na obrigação de tratar a todos como “iguais” no quesito remuneração e benefícios nem de premiar o funcionário por “tempo de serviço”. Não espere que seu empregador seja “justo” (há quem considere justo tratar todos como iguais no plano profissional e que tempo na função é uma demonstração de lealdade – só para constar, eu já pensei assim…mas mudei de ideia)…A diversidade é um conceito pregado em muitos ambientes profissionais e funciona para muitas culturas. Mas não sejamos ingênuos: justiça é um conceito bastante relativo quando aplicado para definir salários e benefícios. O que é justo para um, pode ser injusto para outro, não há uma regra universal e na minha humilde opinião… não deve haver. Mas não me entenda mal! Isso não significa que não devam existir critérios objetivos de base ou procedimentos padrão em Recursos Humanos como referência. Porém, ainda que haja uma certa dose de subjetividade, a decisão final sobre salários e benefícios serão sempre uma prerrogativa do empregador. Você pode julgar, não concordar e até se manifestar. Mas tenha em mente que, neste caso, a bola rola no campo do empregador!

Quando um funcionário valioso recebe uma proposta para ir trabalhar em outro lugar e o empregador atual deseja retê-lo, pode decidir oferecer algo a mais que seja de valor para o funcionário e, claro, que ele possa “pagar”. Pode parecer “injusto” que a oferta de aumento ou benefícios adicionais só seja feita quando o funcionário pede demissão… você pode pensar “Ué… mas se o cara é bom, por que não deu antes?” … Pois é! Mas infelizmente, isso acontece muito. Deal with that! Neste caso, o funcionário tem total liberdade para aceitar ou não as condições que lhe são oferecidas. Não é obrigação do empregador oferecer, nem do empregado aceitar.

Mas por que a empresa não me paga sequer um curso de inglês?

Outro aspecto que gera polêmica e é motivo para muitas “conversas com o gerente de RH” é treinamento!

Cursos são oferecidos com um único objetivo:  o objetivo do empregador…Treinamento interno ou externo é patrocinado pelo empregador para que o funcionário adquira determinada habilidade ou competência em prol dos objetivos da empresa. Os objetivos acadêmicos do funcionário não são uma preocupação do empregador (sim, há exceções…em pouquíssimas empresas).

Vou dar um exemplo: A empresa TAL tem como objetivo aumentar seu faturamento através de exportação e decide prospectar um cliente nos EUA. Para isso, precisa de um vendedor técnico que conheça bem o produto e seja fluente em inglês, pois a ideia não é só vender uma vez, mas acompanhar o cliente na implantação, dar treinamento e manter um relacionamento duradouro de pós-venda com este cliente. O empregador tem 2 alternativas: contratar alguém que já tenha fluência no respectivo idioma e treiná-la sobre o produto da empresa OU capacitar seu melhor vendedor, que arranha o inglês mas não é fluente. Supondo que a empresa decida apostar em seu melhor vendedor… Qual é a razão para investir no curso de inglês? O desejo deste vendedor em falar fluentemente uma outra língua OU a necessidade da empresa em fechar o tal negócio? Pois é assim que TODAS as decisões sobre treinamento acontecem na cabeça do empregador! É desta forma que o empregador pensa. Ele não está sintonizado com os desejos e intenções do empregado quanto aos cursos que deseja fazer. Se o funcionário deseja fazer uma pós-graduação, aprender um novo idioma ou até mesmo se capacitar para mudar de função dentro da empresa, deve buscar por si próprio os recursos para concretizar seu próprio desenvolvimento profissional.

Repetindo: quando o empregador investe em treinamento para um funcionário, são os interesses da empresa que estão em jogo. Salvo em raras exceções, a empresa não pergunta ao funcionário: “Você quer fazer um curso? Quer que a empresa pague para você?” O funcionário não recebe um menu de cursos para escolher e não deve exigir determinado curso alegando que o colega do departamento está fazendo este ou aquele curso “pago pela empresa”.

Obs.: Seguindo o mesmo racional…quando a empresa decide renovar sua frota de veículos, não cabe ao funcionário que usa carro da empresa reclamar sobre sua marca e/ou opcionais adquiridos. Você pode tentar, mas sua reivindicação não será bem recebida.

 

Reflexão e Conclusão

Nos últimos 15 anos aconteceu neste país uma terrível inversão de valores em que os funcionários se colocaram em uma posição de exigir por remuneração, benefícios e treinamento como se fossem seus direitos de cidadão… esquecendo que na relação de trabalho há SEMPRE uma troca.

Se você acha que tem direito a algo mais do que você recebe, deve fazer a seguinte pergunta para você mesmo, antes de verbalizar a reivindicação para seu empregador:

Pergunta: O que eu estou fazendo de concreto para ser merecedor de aumento salarial, melhores benefícios ou treinamento pago pela empresa?

Se sua resposta for…

“Acordo cedo, pego condução lotada – ou trânsito -  e venho “ralar” todos os dias na empresa. Chego em casa exausto, para que “eles” se encham de dinheiro …enquanto eu mal consigo pagar minhas contas. Mereço um aumento!”

…sinto dizer que você está equivocado e não vai conseguir o que deseja. Por isso (tudo o que você menciona na resposta acima) a empresa já está lhe pagando uma remuneração, que você aceitou quando assinou o contrato de trabalho. Se você deseja ganhar mais… precisa fazer mais! Se você acha injusto… então deve começar a procurar outro emprego.

Agora, nem tudo é tão “árido” como estou mostrando… afinal, há pessoas nas empresas que se preocupam com o bem-estar de seus funcionários, com sua motivação, com sua saúde física e mental, para que continuem engajados e desempenhando “o seu melhor”! Tenho certeza de que, onde você trabalha há pessoas que gostam genuinamente de você e querem que você continue por perto.

A maioria das grandes e médias empresas depende de bons funcionários para manter-se competitiva no mercado e investe para atrair, contratar e reter os melhores talentos. Para isso, fazem avaliações de desempenho e premiam aqueles que fazem a diferença.

O funcionário talentoso e de alto desempenho deve analisar se o pacote de remuneração oferecido está alinhado com suas expectativas e, caso esteja descontente, pode (a) conversar de forma madura com seu superior para tentar fazer um ajuste fino na relação de trabalho ou (b) pode buscar uma outra relação de trabalho, mais satisfatória, em uma outra empresa.

Mas atenção! Antes ir falar com seu empregador para reivindicar o que você se acha no direto de receber, é importante sempre fazer uma auto avaliação…bem sincera… sem emoção… e responder a estas perguntas:

  • O que é esperado de mim? Estou entregando o que meu empregador espera que eu entregue?
  • Sou daqueles que trazem soluções ou fico arranjando desculpas?
  • Meu salário não é suficiente para pagar minhas contas porque está muito abaixo da média salarial oferecida pelo mercado…ou será que estou gastando além do que posso? Estou disposto a me “expor” e dar  ”abertura” para meu empregador me dizer como devo gastar meu dinheiro?
  • Minhas razões para ir conversar com meu chefe para reivindicar meus direitos tem mais a ver com a falta de reconhecimento por meus méritos… ou estou com ciúmes de um colega que foi premiado?
  • Quando aceitei trabalhar nesta função eu refleti sobre os sacrifícios que teria que fazer na minha vida pessoal?
  • Já me coloquei nos sapatos do meu empregador para entender por que eu não recebi um aumento ou uma promoção?

E, por fim… se você concordar com nada do que leu até aqui, pelo menos faça uma coisa: coloque-se nos sapatos do seu empregador e leia em voz alta as razões por que você acha que é obrigação da empresa lhe dar isso ou aquilo. Se você se comover com suas próprias palavras…vá em frente! Desejo-lhe Boa sorte!


6 Responses to “A empresa lhe deve NADA!”

  1. Excelente trabalho, Milene. É assim que eu penso. E assim deveria ser. Atualmente, todos exigem os seus direitos, porém muitos não cumprem com suas responsabilidades. Leia a Constituição brasileira e logo descobrirá essa verdade.

  2. Vany Laubé says:

    Conheço gente que pensa assim dos dois lados… quanto menos emoção houver na mesa de negociação, melhor para todos. Ótimo artigo, Miene

  3. João Evaldo Mendonça says:

    Excelente, muito bom o seu trabalho! Porém, no entanto… Não devemos nos esquecer que; o nosso produto, como a nossa especialização já sugere, é recursos humanos. Sou muito prático, minha vida sempre foi, e é, muito direcionada para a prática. Eu parto do principio, que ninguém faz absolutamente nada que não queira fazer.

    Querer, vem antes do alimento, da roupa, calçado, da cor, do dinheiro… do ir e do vir.
    O que precisamos fazer, é, descobrir onde está a vontade de fazer? Onde o elemento quer chegar? Quanto tempo ele, (a), esta disposto, (a), a gastar para atingir sua metas e objetivos na vida profissional? E algo muito importante: Está na profissão certa? e ocupando o cargo certo? a vontade de “ter” está condizente com o “ser”?

    Se chegamos a tais respostas, e ainda persistem as insatisfações… É bem provável que o problema não esteja no empregado, mas, sim, no Empregador. E quando o empregador não desliga logo, o tal “insatisfeito”, tal insatisfação leva o elemento para baixar auto, – estima, alcoolismo e drogas… nós chegamos a

  4. João Evaldo Mendonça says:

    Peço desculpas a todos. Tive um dia difícil: Estudo, trabalho, família, trânsito…Ufa!
    Mas, enfim, navegar é preciso.
    A minha opinião sobre, ficou incompleta… Dormi!
    Concluindo: … Nos estamos vendo, e vendo com muita frequência os casos de assédio moral envolvendo empregado e empregador. Além de embaraçoso, mancha a imagem da Empresa junto aos demais e sociedade, aumenta a rotatividade de colaboradores, trás prejuízo financeiro para a Empresa, perde-se muito tempo para treinar novos colaboradores.

    Aliás, “Empresas não existem para dar lucro, existem sim, para atender a uma necessidade humana… O lucro vai depender de como esta necessidade está sendo atendida”

  5. Anderson Petean says:

    Excelente artigo Milene, o desenvolvimento pessoal é uma atribuição do indivíduo, não cabe a organização. Quem gerencia sua própria carreira é você mesmo, não delege isto aos outros.
    As Empresas investem em suas carências e não nas necessidades individuais de seus colaboradores.

  6. Julio Silva says:

    Abordagem ampla e realista. Excelente texto!!

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