March 12th, 2010

O Chefe Que Emergiu do Inferno

“It was like a dog barking at you for hours. He just yelled, ranted, and raved. He was condescending, belligerent, and disrespectful. It was a very, very hostile environment. Everything was a confrontation and a put-down. It was as if he were a fighter in a ring…”

Richard L. Boynton, CEO da Jura Capresso Inc. e ex-presidente da divisão de household products da Sunbeam Corporation sobre Al Dunlop.

Quando pensamos em chefes que emergiram do inferno comumente nos vêem à mentefiguras como Herodes e sua sede por sangue infantil; Hitler, líder político nazista alemão, eseu objetivo insano e ignóbil de varrer da face da terra o povo judeu; Vladimir Ilyich Ulyanov (Lênin), fundador do partido comunista, do estado soviético e do sistema bolchevique na Rússia, descrito por Alexander Potresov em 1927 como um “gênio do mal”; Iosef Vissarionovich Stalin, segundo chefe do Império Soviético, para quem “não são os princípios que importam, mas o monopólio do poder”; Fidel Castro, revolucionário cubano, ex-presidente de Cuba, ídolo e mentor dos principais líderes políticos brasileiros e responsável pela matança e fuga de milhares de cidadãos para os Estados Unidos.

Todas essas personalidades possuíam uma aptidão e uma vocação satânica para promoverem a coletivização sangrenta, os expurgos hediondos e a matança cruel, não apenas de seus inimigos políticos, mas também de seus próprios “companheiros de partido”. O assassinato de Leon Trotski assassinado por Ramón Mercader, um agente de Stalin, é um exemplo insofismável. “Não hesitamos e não hesitaremos em fuzilar milhares de pessoas,” bradou Lênin em 12 de janeiro de 1920. E as suas palavras se concretizaram – treze milhões de vidas foram ceifadas na guerra civil, dois milhões de cidadãos russos deixaram o país e toda a família real russa foi destruída.

Toda essa matança humana foi feita em nome de uma ideologia utópica que prometiaprosperidade e riqueza para todos, mas cujo regime terminou em total escravidão ecompleto aprisionamento da mente. Em carta endereçada à Gorky em fevereiro de 1908, Lênin escreveu: “A importância da intelligentsia em nosso partido declina: recebemos notícias de todos os cantos de que a intelligentsia está fugindo do partido. Fiquemos livres deste péssimo refugo (…) Tudo isso é maravilhoso”. Sobrevivem apenas os ignorantes, os desinformados e os vassalos. Qualquer semelhança com o nosso atual quadro político e liderança governamental não é mera coincidência. É ignorância planejada.

Ao estudarmos e analisarmos a história de muitas corporações, infelizmente encontramosno seu interior executivos cujo perfil em nada difere dos déspotas acima mencionados. A única coisa que os difere é que o seu poder é limitado e por isso mesmo em vez de mandarem seus liderados para o paredão de fuzilamento, para a câmara de gás ou para oscampos de concentração, eles os matam lentamente inoculando neles doses homeopáticas de veneno mortífero por meio de assédio moral desavergonhado, freqüente, intempestivo e incontrolável. Quem presencia um desses executivos, homem ou mulher, em momentos de surto, não tem nenhuma dúvida – ele ou ela incorporou o espírito do diabo e emergiu do inferno.

Esses “lideres” cruéis, insensíveis, sangrentos e carentes de consciência são facilmente reconhecidos. Podemos nos proteger contra eles. No entanto, há outra espécie de chefe que emergiu do inferno, cuja psicopatia é extremamente difícil de identificar com clareza e rapidez. Ele, apesar de maléfico e ardiloso, utiliza subterfúgios tão bem pensados e engendrados que parecem se tratar de seres humanos normais. Mas eles não são. Eles são raposas da pior espécie e fruto de uma desordem natural, apesar do seu alto grau de inteligência, maqueavelismo e sede de poder. Por trás de seus atributos – efeito hipnótico sobre as pessoas, vontade férrea, retórica contundente, compreensão e domínio sobre as pessoas, energia indomável etc – se escondem os horrores de homens e mulheresdiabólicos.

Esses chefes que emergiram do inferno são indivíduos frios, calculistas, inescrupulosos, dissimulados, mentirosos, agressivos, sem senso de justiça e irresponsáveis em suas palavras e ações. Eles não percebem o impacto que causam nos outros e acham que o mundo lhes deve tudo. Seu senso de grandiosidade e individualidade afeta a sua capacidade de sentir culpa ou remorso, portanto são incapazes de corrigem a si mesmos.Esses indivíduos apresentam ainda psicorigidez da mente por meio de atitudes de intolerância, fria racionalidade, obstinação e temor exagerado da agressividade dos outros. Além disso, gostam de pousar como vítimas indefesas. Consequentemente, a ausência da culpa ou de remorso gera a falta do limite. Sendo assim, revelam caráter extremamente duvidoso, apesar de se colocarem como referencial e medida padrão do bem e do mal – eles são a medida de todas as coisas. Criticam a todos, porém não admitem ser criticados.São comumente sedutores e objetivam apenas o benefício próprio e satisfação de seu ego insaciável. Eles são ainda incapazes de estabelecer vínculos afetivos ou de se colocar no lugar do outro. A sua marca principal é a impressionante falta de consciência em suasrelações intra e interpessoais.

Inúmeros exemplos extraídos da minha experiência cotidiana assessorando executivos ilustram de maneira inquestionável o comportamento desses psicopatas nas organizações:

  • Presidente de conhecida indústria farmacêutica que após sobreviver à grave crisehipertensiva em seu escritório e ser socorrido pelo médico de sua própria empresa, declarou para os seus diretores que o aguardavam em sala anexa a sua para uma reunião: “Eu já sei que não vou enfartar hoje. Só me resta saber quem eu vou fazer enfartar em meu lugar.” E não é que eles muitas vezes conseguem satisfazer o seu objetivo bestial? E, quando não conseguem destruir o corpo físico, destroem a alma de seus subordinados.
  • Profissional em processo de transição de carreira assistido no último ano pela Gutemberg Consultores foi chamado a participar de processo seletivo em grande indústria nacional. Durante a entrevista com a gerente de recursos humanos, essa tentou desestimulá-loquanto à oportunidade. Motivo: “o presidente exige de seus colaboradoresdisponibilidade irrestrita. Consequentemente, ele teria de abdicar de sua carreira acadêmica no período noturno.” Para surpresa do profissional, dias depois, essa mesma gerente agendou nova entrevista, só que agora, com o presidente. O candidato chegou pontualmente, conforme agendado, porém o presidente chegou com uma hora e meia de atraso. No primeiro instante após cumprimentar o profissional, ele solicitou que ele falasse sobre a sua experiência. Após ouvi-lo, pediu para que ele descrevesse de forma prática e não teórica a respeito de suas realizações e conhecimentos sobre sua área de trabalho. E, logo a seguir complementou: “eu preciso de um profissional que dê rasteiras, cotoveladas, não tenha medo de dar empurrões e de atropelar quem quer que seja. O que eu quero é ganhar, não importa os métodos que você terá deempregar aqui.” E, mais adiante, vendo no currículo do candidato que ele era professor universitário, fez a seguinte pergunta: “Na faculdade em que você ensina, têmmulheres tão gostosas quantos aquelas que trabalham na minha empresa?”
  • Essa postura vulgar denota a falta de percepção do compromisso respeitoso entre o empregador e o empregado, além de forte senso de dominação e tirania. “Eu posso tudo e você será o meu agente do mal.”
  • Richard S. Tedlow, em sua excelente obra, “The Watson Dynasty”, 2003, referindo-se a um déspota corporativo, John Henry Patterson, fundador da NCR, escreveu: “estamos falando de um homem que pegava as mesas e as cadeiras dos seus colaboradores e literalmente colocava fogo, se não gostava deles.”

Caro leitor, como você deve saber, no dia-a-dia de nossas organizações, infelizmente,ainda nos deparamos com comportamentos insanos e destrutivos. São executivos que atiram grampeadores em suas secretárias, humilham histrionicamente subordinados e pares chamando-os de imbecis, incompetentes, burros e idiotas; chutam moveis; batem e fecham as portas de suas salas luxuosas com violência; ameaçam demitir colaboradores sem nenhum motivo legítimo; comportam-se em salas de reunião como se fossem verdadeiros animais selvagens; são desprovidos de inteligência emocional e muito menosde noções básicas de civilidade. São primatas vestidos de paletó e gravata ou tailleur e salto alto. Na linguagem de Paul Babiak, “Snakes in Suits”.

Ao ouvir e ler tantas histórias verdadeiramente assombrosas sobre chefes que emergiram do inferno lembrei-me de um depoimento que li recentemente sob o título, “Jesus e a Raposa”. Nele o autor, Uéslei Fatarelli, escreveu: “Existem raposas que são fruto de uma ordem natural, mas há também um tipo de raposa que é resultado de uma desordem da natureza. O primeiro grupo respeita sua espécie e alimenta-se de outras, somente para sua sobrevivência, o que faz com que não haja qualquer tipo de extinção. Por outro lado, o segundo grupo, além de não cuidar e nem de respeitar os de sua própria espécie, promove tanto a destruição dele mesmo, como também a extinção de outros grupos de seres vivos.” Esses últimos são os chefes que emergiram do inferno.

Esses chefes que emergiram do inferno são incorrigíveis. O seu problema é atávico. Portanto, não há coaching executivo que os corrija. Como diz a sabedoria popular mineira, “Lavar cabeça de burro é gastar água, sabão e tempo.” Em outras palavras, você nunca será capaz de mudar a sua cabeça. Mas é bom reconhecer que eles ainda estão e dirigem muitas organizações.

Se você convive atualmente com esse tipo de chefe, é melhor aprender rapidamente a se preservar. Mas como se proteger dessas raposas endemoniadas? Esse é o assunto de nosso próximo artigo.


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