February 2nd, 2010

Carreira Executiva e a Marcha Insensata Para a Morte


Por Gutemberg de Macedo

Por toda parte parece estar se espalhando algum tipo de droga, uma comichão para a devassidão. As pessoas tornaram-se sujeitas a uma distorção de idéias sem precedentes, uma idolatria em massa do materialismo. Por materialismo, neste caso, refiro-me à idolatria do dinheiro pelas pessoas, à adoração do poder inerente a um saco de ouro. Subitamente parece ter ocorrido às pessoas a noção de que o tal saco contém todo o poder. Alguma coisa saturada de materialismo e ceticismo está se espalhando pelo ar, uma adoração do ganho fortuito, do desfrute sem trabalho. Toda fraude, toda vilania é perpetrada a sangue frio.
Fiódor Mikháilovitch Dostoievski, escritor russo, 1821-1881

Manhã de segunda feira. O despertador toca e você sabe que tem de se levantar da cama rapidamente, fazer a sua higiene pessoal, vestir-se, tomar o seu café da manhã, levar os seus filhos para a escola e fazer o seu rotineiro trajeto para o trabalho.

Durante o percurso, você repassa mentalmente todas as atividades que deverá empreender ao longo do dia: demitir um colaborador fiel e prata da casa; anunciar a promoção de um subordinado de alto desempenho; concluir um relatório para a matriz no exterior; preparar uma apresentação para a alta administração local; reunir-se com um fornecedor, credor ou cliente por motivo relevante e inadiável; entrevistar um profissional para nova posição em seu departamento; convocar todos os seus subordinados diretos para uma reunião emergencial, entre tantas outras atividades.

Entretanto, nenhum de seus compromissos o deixa mais triste, deprimido e com a sensação de que está sendo violentado em sua dignidade pessoal e profissional do que a reunião que terá com seu superior imediato as 10h00 da manhã.

Esse seu sentimento se justifica plenamente:

As reuniões que ele lidera são verdadeiras sessões de tortura psicológica e assédio moral que pouco a pouco minam a sua auto-estima; o fazem questionar a própria competência pessoal; o deixa confuso e às vezes em pânico, sem saber como se conduzir e o que fazer; e, por último, o conduz a um verdadeiro vazio existencial – o trabalho perde a sua razão de ser e o da vida de existir. Essas reuniões são extremamente estressantes. Não é por acaso que a sua empresa tem um grupo de executivos (a) verdadeiramente doente – eles sofrem de depressão, vivem na dependência de drogas e não conseguem viver sem o auxílio de psicanalistas.

Você, ainda, como outros executivos de sua organização, não acredita em nada do que ele diz. O seu discurso é vazio, “fake” e desprovido de exemplo genuíno.  E mais, o seu preparo para o exercício do ofício de CEO é comprovadamente discutível.

Além disso, você sabe que por trás de suas palavras sempre bem pensadas e pronunciadas, principalmente nas revistas de negócios, jornais e Câmaras de Comércio, se esconde um tirano, um psicopata, um individualista exacerbado, um narcisista que está mais preocupado com o engrandecimento e enriquecimento pessoal, do que com o sucesso da empresa que dirige, o desenvolvimento e o crescimento de seus liderados. Você não o respeita pela sua autoridade, mas pelo seu poder coercitivo. Você sabe que ele tem o poder de vida e de morte sobre a sua carreira – “If you stick your neck out it will only get cut off.”

Sim, caro leitor, esse é um trajeto que muitos profissionais fazem todos os dias, mas que prefeririam não fazê-lo. Afinal, a sensação que eles têm todas as manhãs é a de que estão fazendo “a marcha insensata para a morte.”

As palavras de Tony Hsieh, CEO da Zappos.com, confirmam nossa observação, “I just didn’t look forward to going to the office. The passion and excitement were no longer there. That’s kind of a weird feeling for me because this was a company I co-founded, and if I was feeling thar way, how much the other employees feel?” (Jornal, The New York Times, Business, 10 de Janeiro de 2010).

Sabemos por experiência e pesquisa que muitos são os fatores que contribuem para a morte prematura de muitos executivos. Entretanto, nenhum deles parece ser tão violento e fatal como a de ser liderado por um chefe psicopata, tirano e desacreditado.

Richard Conniff, em seu livro “The Ape in the Corner Office”, diz: “Experimentos têm demonstrado que um mal chefe pode levar os subordinados a apresentarem alto nível de cortisol, o chamado hormônio do estresse. Isso não é novidade. Porém o mais intrigante é que elevados níveis crônicos de cortisol podem levar à morte células em uma área do cérebro chamada hipocampo, com efeitos devastadores para o bem-estar de uma pessoa.”

E, em outro trecho do mesmo livro, afirmou: “As pessoas que nos cercam podem influenciar nossa pressão arterial, nossa produção de hormônios como a serotonina, a dopamina, o cortisol e a testosterona, nosso circuito neural e até mesmo nossa capacidade de reprodução.”

Salomão, sábio judeu, há três milênios aproximadamente, advertiu: “Não te associes com o iracundo, nem andes com o homem colérico, para que não aprendas as suas veredas e, assim, enlaces a tua alma.” (Provérbios 22.24-25)

Infelizmente, muitos profissionais confrontados com essa realidade macabra, afirmam: “Eu não tenho condições de questionar a conduta de meu superior. Eu posso perder o meu emprego;” “Eu não tenho condições financeiras para dar o meu grito de independência;” “Eu vou esperar um pouco mais…” O que esses profissionais não sabem é que o tempo passa rapidamente e eles vão se despersonalizando e se transformando em ovelhas dóceis e obedientes. Na verdade, esses são mercenários da alma, pois vendem a alma ao diabo em troca de um emprego que os levará á morte.

Caro leitor, diante de tal circunstância, por mais recessivo que seja o mercado de trabalho, você tem opções:

Assumir as rédeas de sua vida e carreira e buscar nova oportunidade de trabalho em outra empresa enquanto está trabalhando e tem vida. Quanto mais tempo você esperar, pior para você e, especialmente, para sua carreira. Não espere até que as circunstâncias mudem. Mude você mesmo, pois nunca terá a oportunidade de mudar a personalidade ou o comportamento de um chefe tirano e mal preparado.

Limitar sua exposição a esse “carrasco talibã”, enquanto procura uma nova oportunidade de trabalho no mercado. Essa é uma maneira inteligente de fugir do problema temporariamente e sem se despersonalizar.

Bater em retirada imediatamente. Essa opção deve feita apenas quando todos os recursos tiverem sido esgotados. Saber quando sair de cena é mais importante do que saber quando entrar. É minha convicção e experiência que bons profissionais podem sair e encontrar um ótimo emprego em outro lugar não importa o momento vivido pelo mercado.

Submeter-se e despersonalizar-se. Essa é a pior das opções. Ela é comumente feita por profissionais despreparados, medrosos e inseguros.

Mas, como se preparar adequadamente para o seu afastamento de sua empresa atual? Aqui estão algumas sugestões que poderão guiá-lo nessa fase de sua vida e carreira:

Busque, inicialmente, a sugestão de um bom conselheiro. Em geral, quando um profissional está sob estresse, torna-se extremamente difícil pensar com racionalidade. É preciso receber ajuda de alguém que não esteja envolvido com o problema. Portanto, não hesite. Busque a ajuda de quem pode lhe aconselhar. “Onde não há conselho, fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito.” (Provérbios 15.22)

Investigue o nível de poder que seu superior imediato tem sobre você e a sua carreira. Essa é uma questão de extrema importância. Portanto, não a despreze.

Averigue com que recursos você pode contar e qual é o seu poder de fogo. Nunca declare guerra antes de avaliar o poder de fogo de seu inimigo.

Desenhe qual é o melhor e o pior dos cenários – quais são as conseqüências de pedir sua demissão.

E, por último, jamais confunda a sua vida com o seu trabalho. Lembre-se das palavras de Richard Baker, ex-chief executive da rede de farmácias Alliance Boots “Quando acabar e eles o colocarem num caixão, você não vai ser julgado pelo lucro que obteve,” (“The Secrets of CEOs”, Steve Tappin e Andrew Cave, 2008).

Caro leitor, diga sim a vida e se esforce para encontrar um trabalho que o deixe apaixonado todos os dias e um superior imediato que o desenvolva totalmente. Lembre-se que a felicidade é inseparável do sentido da vida e que a sua vida, como disse Marco Aurélio, “deve ser vivida como se você estivesse pronto para dizer adeus a qualquer momento, como se o tempo que lhe resta fosse uma agradável surpresa.”

Portanto, escolha fazer a marcha para a vida e não a marcha insensata para a morte.

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