January 14th, 2010

Como Entender a Crise Financeira Global

Stephen Kanitz, concorde você ou não com ele, é um das grandes cabeças deste país. Seus textos são muito bem fundamentados, e sua atuação na área de filantropia admirável. Por isso, fiquei feliz quando ele publicou em seu blog um artigo baseado em um comentário meu sobre a crise financeira global:

Fonte: http://blog.kanitz.com.br/2010/01/lições-da-crise-iii–o-credit-default-swap.html

Excelente observação de Marcos Dutra, aqui nos comentários deste blog, que repasso para vocês pensarem um pouco.

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“Agora, a causa desta Crise, não vi a explicação correta nem UMA vez na mídia brasileira. “Credit Swap Bonds”.

Ninguém nem sabe o que estes instrumentos, que causaram a crise, querem dizer.

São simplesmente apostas vendidas no cassino financeiro global sobre a probabilidade de um bond ser pago.

Ninguém na mídia, nem um jornalista, nem Meirelles, nem Betting, nem Miriam Leitão, nem Malan, nem Delfim, NINGUÉM entendeu o que causou a crise.

A crise imobiliária e a farsa dos ratings foram só o estopim.”

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Marcos, o incrível é que o termo completo era credit DEFAULT Swaps, um sistema de seguro de crédito via derivativos.

Seu objetivo era garantir o pagamento de Bônus inadimplentes. Você vendedor do derivativo, recebia um pagamento agora, em troca de pagar ao credor o valor da dívida no caso de DEFAULT.

Se era um seguro contra crise financeira, porque ele causou uma crise, quando o objetivo era impedir DEFAULTS em cascatas, justamente o que ocorreu.

Mas não seja duro com nossos jornalistas e economistas. Nem os economistas e jornalistas americanos perceberam a contradição em termos, como um instrumento novo criado pela Lehman Brothers, com o objetivo de fazer justamente o que o FED acabou fazendo, não funcionou.

Foi erro de implantação, foi erro jurídico, foi erro da ideia original? Todo administrador sabe a resposta.

Infelizmente, nenhuma destas pessoas que você mencionou estudou administração, especialmente administração e análise de crédito, e por isto esta questão passou batido. Como ninguém ouve o que administradores tem a dizer sobre macroeconomia, este problema ficará escondido dos anais da história, e nossos Professores de Administração e nosso conselho de Administração nada fazem para valorizar nossa profissão e nossas contribuições. Precisamos mudá-los, já.

A crise será atribuída à ganância dos administradores e seus bônus milionários, à ganância dos vendedores de imóveis e seus métodos de marketing sem escrúpulos, a falta de regulamentação do setor bancário, ou seja “a prisão dos inocentes”, última das 7 fases de uma crise, como previ um ano atrás.

Em sociedade quem não aprende de seus erros, irá revivê-los. Ou seja, preparem-se para uma nova crise, digamos por volta de 2019.

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(texto do editor)
Esta questão é fundamental. Precisamos no Brasil aprender a não sermos superficiais. O pior argumento que tenho visto, utilizado por políticos e jornalistas, é que tal idéia “está sendo muito utilizada no exterior”, ou pior, “é uma tendência mundial”. Lá fora se faz muita besteira também, e precisamos ter o cuidado de não apenas lermos as notícias que saem na mídia, mas procurarmos ao máximo fontes primárias e alternativas, que hoje são fáceis de encontrar na Inernet.

Um bom exemplo é o caso do aquecimento global causado pelo homem: enquanto no Brasil engolimos tudo o que o Al Gore e a ONU dizem sem analizar nada, não ficamos sabendo que no exterior há um movimento de cientistas e cidadãos muito forte que se opõe a estas conclusões. Os jornalistas precisam ter um pouco menos de preguiça e ir atrás desse tipo de informação.

Para quem não entendeu ainda a crise financeira, vou tentar explicar de forma simples:

  1. Os bancos pegavam várias hipotecas e juntavam os direitos de cobrança e recebimento em um pacotão, que viravam um título,
  2. Estes títulos eram muito atraentes, porque pagavam mais que o mercado. As agências de risco (em um caso de fraude não punido até hoje) também davam grau AAA (sem risco) para estes títulos. Na verdade, as hipotecas eram de gente que não tinha onde cair morta, e por isso, arriscadíssimas.
  3. As empresas que compravam esses títulos faziam um seguro chamado “Credit Defaut Swaps”, em caso de não-pagamento dos títulos. Como o rendimento dos títulos era bom, valia a pena comprar e fazer o seguro, que ainda sobrava lucro.
  4. Quando os proprietários dos imóveis deram o cano em massa, os títulos baseados no pagamento das hipotecas passaram a não valer nada.
  5. As empresas e bancos que compraram os títulos foram pedir a indenização do seguro, e o volume foi tamanho que levou a AIG e os bancos à falência.

Portanto, o fato de o Brasil não ter sido muito afetado pela crise tem pouco a ver com competência dos bancos ou do governo brasileiro. Simplesmente escapamos porque nossos bancos não lidam tradicionalmente nestes mercados de Credit Default Swaps, porque é muito mais lucrativo e seguro emprestar dinheiro ao governo, que paga juros estratosféricos, bancados por nossos impostos.

Na próxima vez que Lula falar que salvou o Brasil da crise, espero que alguém pergunte a ele o que são Credit Default Swaps.

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