November 10th, 2009

Por que os brasileiros são tão vulneráveis ao engano?

Por Gutemberg Macedo

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Afundar numa poltrona em frente à televisão e colocar a mente em ponto morto por um curto espaço de tempo, diariamente, pode recarregar as baterias. Colocar a mente em ponto morto indefinidamente pode literalmente acabar conosco”.

Michael R. Legault, editor do National Post e autor do livro “Think”

O engano é um desvio do comportamento humano observado em todas as nações e sociedades do mundo, das mais primitivas até as mais modernas. Portanto, o Brasil não foge à regra. Muito pelo contrário, a sensação que temos é a de um povo que se deixa ser seduzido e movido pela mais escabrosa desfaçatez, a mais ignóbil fantasia, a mentira mais desavergonhada e o discurso mais incoerente e incompetente. É a engenharia do engano em toda a sua força e plenitude. É a ignorância na sua forma mais hedionda e perversa – a cegueira da mente.

Vejamos alguns exemplos extraídos de nosso dia-a-dia que ilustram essa vergonhosa realidade:

* No mundo corporativo, o engano é um comportamento comum, atávico e visível. Eis alguns exemplos extraídos do dia-a-dia das organizações: é o profissional que no afã de conquistar novo emprego, mente ao entrevistador sobre suas qualificações profissionais, acadêmicas e pessoais; é o gestor que ao preparar seu relatório de despesas de viagem, falsifica o valor dos gastos feitos, a fim de se beneficiar indevidamente dos recursos financeiros dos acionistas; é o gestor que no afã de projetar uma imagem positiva e excepcional perante o chefe, se utiliza de expedientes falaciosos para conquistar o seu objetivo de carreirista – apresenta-lhe dados falsificados sobre o andamento de determinado projeto, culpa um ou mais de seus subordinados pelo erro que ele mesmo praticou e é o único agente responsável, dá a impressão de que trabalha duro na organização, quando na verdade dedica a maior parte de seu tempo ao gerenciamento de seus próprios negócios ou empreende trabalho comprovadamente “fake”, fornece dados desatualizados a um colega de trabalho, a fim de vê-lo ser desmoralizado por ocasião de uma apresentação ao corpo diretivo da empresa; é o gestor que para credenciar um fornecedor, não importa a sua área de trabalho e nível de qualificação de seus produtos ou serviços, exige um pedágio que pode girar em torno de 10 a 30% do valor do contrato. Essa é uma cifra nada desprezível e que pode tornar muitos gestores milionários em pouco tempo.

Creia-me, eles podem estar ao seu lado discursando sobre a importância da transparência para encobrirem os seus desmandos. Afinal, quem nunca ouviu falar sobre executivos que contratam empresas para reformar seus escritórios, para logo se descobrir que essas mesmas empresas estavam reformado os seus luxuosos apartamentos? Quem nunca ouviu falar sobre executivos que promovem festas milionárias em suas residências para alguns “bons amigos” para logo a auditoria interna da matriz descobrir que essas festas eram pagas com o dinheiro dos acionistas sob a farsa de jantar de negócios?

* A revista Veja em matéria de Otávio Cabral e Alexandre Oltramari sob o título, “A Reconstrução da Ministra”, de 4 de novembro de 2009, págs. 63 a 65, diz: “O governo e os marqueteiros moldam o novo perfil de Dilma Rousseff a ser apresentada aos leitores: mineira, simpática, afável, de discurso simples e antenada com temas ambientais”. Certamente, não é esse o perfil verdadeiro da Ministra Chefe da Casa Civil, tantas vezes discutido pela imprensa nos últimos anos. Essa é apenas uma tentativa de operar uma transformação superficial, mercadológica e temporária, com o objetivo de apresentá-la à Nação como candidata a presidência da republica, dócil, compreensiva, conciliadora e capaz de seduzir e enganar uma nação inteira – “Estamos saindo do zero, fabricando um candidato. Tudo precisa ser clandestino”. Mas a verdade é bem diferente, segundo os autores da matéria: “Dilma ficou conhecida pela austeridade, inclusive no tratar com auxiliares e colegas, pela falta de tato político, o que já lhe rendeu brigas e desafetos dentro do próprio partido, o PT, e pela dificuldade em se comunicar”.

Fabricar um candidato para adequá-lo superficialmente à imagem de candidato ideal e torná-lo atraente à nação é um ato enganoso e imoral. Como escreveu Baltazar Gracian, “a escravidão não perde a infâmia ainda que a nobreza do escravo a encubra”. Portanto, caro leitor, somente a verdade e a transparência podem dar reputação e substância verdadeiras a um candidato que pretenda conquistar o posto mais importante da nação – a Presidência da República. O engano não vai muito longe, visto que a imagem e o próprio conteúdo são fantasiosos. Isso, apenas, basta para nos deixar desconfiados.

* O engano está presente também em outras atividades humanas – nas universidades, nos laboratórios e centros de pesquisa, no jornalismo, nas artes, etc. Um bom exemplo dessa constatação é o artigo, “Cientistas, Sujeira no Jaleco” de Rodrigo Cavalcante e Mauro Souza, publicado na revista Super Interessante de Julho de 2002 e também o escândalo envolvendo o cientista sul-coreano, Hwang Woo-Suk, que fraudou pesquisa de clonagem e células tronco, que abalou a comunidade científica mundial.

* Líderes de conhecida seita religiosa brasileira neopentecostal foram condenados à prisão nos Estados Unidos pela prática de vários crimes, inclusive contrabando de 56 mil dólares dentro de uma Bíblia (“A Palavra de Deus”), entre outros. Durante o período em que durou suas punições naquele país, seus seguidores alegaram nos diferentes meios de comunicação – rádio, jornal, televisão e cultos religiosos – se tratar de perseguição religiosa. A verdade, no entanto, era bem diferente: eles foram presos por praticarem diversos crimes naquele país. Infelizmente, os supostos “seguidores do apóstolo e bispa”, procuraram transformar criminosos de colarinho branco em santos e pregadores de caráter e conduta irrepreensíveis.

Nesse caso, além de desfigurarem e macularem a imagem histórica dos verdadeiros mártires do cristianismo desejaram transformar crimes passiveis de condenação e prisão em virtudes apostólicas. E, o mais trágico, seus discípulos se dispuseram a defendê-los e a seguí-los sem nenhuma censura ou crítica, apesar dos crimes que praticaram, lá e cá. Não apenas procuraram enganar seus fiéis seguidores, como também “se deixaram enganar”, por motivos que a sociedade brasileira “desconhece”.

Esses pseudos apóstolos do neo-pentecostalismo mundanista parecem desconhecer a mensagem extraída do Livro de que tanto se valem em seus discursos emotivos, a Bíblia Sagrada, para enganar pessoas inocentes, incautas e carentes de tudo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs subtilezas… Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade….” E em outro trecho diz: “Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobreviverão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, ingratos, profanos… cruéis, sem amor para com os bons. Tendo a aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes, afasta-te”.

Ao refletir sobre esses e tantos outros casos, lembrei-me das palavras sensatas e sábias de meu guru e mestre, Baltasar Gracian, em “Ser Pessoa de Substancia” – “Quem a possui não se conforma com quem dela carece. Infeliz é a eminência que não se baseia na substância. Nem todos são personalidades que parecem sê-lo. Há figuras de embuste, que concebem quimeras e dão a luz a embelecos, e há outras, suas semelhantes, que as apóiam e gostam mais do incerto que o embuste promete, por ser muito, do que do certo que uma verdade garante, por ser pouco. No fim seus caprichos terminam mal por não terem fundamento de integridade. Só a verdade pode dar reputação verdadeira e a substância é que a sustenta. Um embeleço exige muitos outros, e assim todo o edifício é fantasioso: sendo construído no ar, tem que descer à terra. Coisas descabidas não vão longe; vendo o muito que promete basta para nos deixar desconfiados, tal qual o que prova demais é impossível”.

É inacreditável como as pessoas conseguem dar sentido ao que não faz nenhum sentido; acreditam em discursos reconhecidamente vazios e enganosos; aceitam, misticamente, qualificações profissionais e títulos acadêmicos sem nenhuma verificação; contratam profissionais sem nenhuma checagem de suas referências profissionais e pessoais; adquirem produtos com base apenas em propaganda falsa; e se submetem a determinadas lideranças sem quaisquer indagações mais críticas. Sim, como observou o psicólogo britânico Richard Wiseman, da prestigiosa Universidade de Hertfordshire, Reino Unido, “as pessoas se comportam de forma tão estranhas por muitas razões: elas gostam de pensar que o universo é mágico; que há uma explicação simples para os seus problemas; gostam, ainda, de acreditar que algumas pessoas são capazes de ver o futuro ou empunhar uma varinha de condão e resolver tudo. Quão irracionais e errôneas são tais idéias”.

Na minha observação e opinião, vários são os motivos que tornam os brasileiros susceptíveis ao engano:

* A maioria da população brasileira, a despeito do excesso de informação e dos recursos da comunicação moderna – rádio, televisão, jornal, revista, Internet, etc – não tem acesso a informação e quando tem não sabe filtrá-la, interpretá-la e, muito menos, avaliá-la. Como muitos sabem, ela chega aos indivíduos de maneira selecionada, editada e dirigida. Isto é, pronta e acabada. Portanto, é só absorvê-la. Atualmente, há 700 bilhões de documentos na Internet e ela está crescendo numa média de 7,3 milhões de páginas por dia aproximadamente. O mundo produz uma média de 2 bilhões de gigabytes de informação por ano. Mais de 11 mil jornais são publicados, outros 11 mil periódicos estão em circulação, e 60 bilhões de variado lixo eletrônico são produzidos por ano, para não se falar de inúmeras outras fontes de informação. Se é verdade que a quantidade de informação é assustadora, estressante e massacrante para a maioria das pessoas, a quantidade de informação útil e de qualidade, tem crescido apenas discretamente, de forma penosamente linear, afirma Kevin Miller em “Surviving Information Overload”. Além disso, o excesso de informação promove a confusão informativa, afeta negativamente a reflexão crítica e faz as pessoas acreditarem que a ignorância é felicidade, segundo Michael Legault.

* O elevadíssimo índice de analfabetos funcionais – 74 por cento da população brasileira não consegue entender um texto simples. Esse é um dado assustador e o qual coloca em cheque o futuro do país. A ignorância funcional torna a nação extremamente vulnerável à políticos demagogos, populistas e mentirosos; à empresas de comunicação lideradas por empresários inescrupulosos e sem nenhum compromisso com a verdade jornalística dos fatos, exceto à sua própria versão; à líderes religiosos gananciosos, materialistas e, também, sem nenhum compromisso com os princípios do cristianismo histórico – honestidade, verdade, disciplina, caráter ilibado, conduta irrepreensível e teologia sadia; á líderes sindicais que exploram e transformam milhares de trabalhadores em massa de manobra – hoje, um meio de vida para muitos ignorantes, incompetentes, despreparados e agressivos: à escravocratas, sem nenhum compromisso com o social e humano que desejam apenas explorar seus empregados ao máximo e transformá-los em serviçais burros e obedientes – uma espécie de bovinos; à gestores mal formados e também mal informados que não suportam ler um livro de 400 páginas. E, se forem incentivados a investirem na aquisição de livros, dirão: “Os livros estão caros”; e, ainda, se forem instruídos a participar de um curso para seu autodesenvolvimento e beneficio, não o farão, se não forem financiados pela empresa onde trabalham. Que tentem a ignorância e vejam que preço terão de pagar.

O espólio do mundo pós-industrializado escreveu Michael Legault, não irá para indivíduos, empresas e nações que improvisam e confiam em decisões instantâneas e intuição, mas para aqueles que se preocupam com detalhes e têm melhor raciocínio crítico e criativo. Portanto, como pode essa população pensar com independência e espírito crítico; distinguir a verdade da mentira; diferenciar o falso do verdadeiro; avaliar e ponderar sobre as reais intenções dos discursos que ouvem e a sua verdadeira prática; formar a sua própria opinião com base em estudo e pesquisa em vez de emprenharem pelos ouvidos; polir e transformar o que lêem em sabedoria; tomar decisões conscientes sobre o que empreendem; agregar valor aos negócios e à sociedade, entre tantas outras questões?

É inteiramente impossível, pelo menos, a curto e médio prazo. Tal realidade, conduz essa população a acreditar que Deus é brasileiro, em milagres e curas instantâneas para seus males; em fortuna rápida e fácil, sem a necessidade de trabalho duro; em salvadores messiânicos que os livrarão no último minuto de todos os problemas; reforça cada vez mais a sua crença no direito adquirido – “entitlement” – eles querem e exigem seus direitos, porém desprezam as suas responsabilidades; e, alimenta um exercito de pessoas complacentes, subservientes e dócil.

Há milhares de pessoas que darão uma volta ao mundo simplesmente porque não querem pensar. Portanto, elas esperam e desejam simplesmente serem seduzidas e enganadas. É o caminho mais fácil e, certamente, o mais desastroso e cruel. “Todos os tolos do mundo se perdem por não pensar: nunca enxergam nas coisas sequer a metade do que nelas existe, e como não percebem o que lhes pode ser prejudicial ou conveniente, aplicam mal os seus esforços”, sentenciou Baltazar Gracian.

Com muita freqüência advertimos inúmeros profissionais em transição de carreira – outplacement – sobre empresas picaretas de recolocação e seu modus operandi de trabalho. Os consultores dessas organizações abordam esses profissionais, geralmente, no final da tarde, dizem ter pressa em entrevistá-los e tentam marcar uma entrevista para as primeiras horas do dia seguinte. Como agendado, os profissionais comparecem para a entrevista. No primeiro momento, tão logo tomam conhecimento da posição e do pacote de remuneração oferecidos, seus olhos brilham. É, aparentemente, o emprego dos sonhos. O consultor, percebendo a alegria do candidato, tenta seduzi-lo a assinar contrato de consultoria que não lhes garantem absolutamente nada. É um estelionatário disfarçado de consultor de recursos humanos. Nesse momento, a ficha cai. Então, eles reconhecem que apesar de advertidos formalmente sobre possíveis armadilhas no mercado de trabalho, acordam para o engano em que incorreram. Esses foram salvos na ultima hora. Outros há, entretanto, que se deixam enganar e, consequentemente, sofrem grandes perdas psíquicas, morais e financeiras. Pensar é fundamental, não apenas na hora da busca de novo posto de trabalho, mas também para o desenvolvimento e progresso da carreira, entre outras questões. Pensar errado é o resultado de dois fatores distintos, embora interligados, afirma Legault, “a inabilidade de pensar criticamente e a falta de vontade de pensar claramente”.

E por que as pessoas tentam enganar? Vários são os motivos:

-  Elas querem tirar proveito das pessoas, suas necessidades e circunstâncias.

- Elas desejam projetar uma imagem do que não são em essência e personalidade – transformam-se em ovelhas dóceis e inofensivas, mas são lobos devoradores.

- Elas ambicionam esconder assuntos que se revelados, poderão causar enormes danos. Felizmente, na Era da Net, nada escapa aos olhos curiosos e implacáveis dos paparazos; nenhum encontro amoroso com o chefe ou colega de trabalho na sala de reunião ou no banheiro do escritório (Veja o livro “O Lobo de Wall Street) permanece em segredo. Nenhuma agressão moral fica sem registro e nenhuma ilicitude corporativa consegue permanecer na obscuridade por muito tempo. Vide a Enrom e a Arthur Andersen, entre centenas de outros casos. Hoje, qualquer pessoa com um telefone celular e acesso a um computador tem o poder de provocar a derrocada de uma empresa bilionária ou até mesmo de um governo democraticamente constituído. Quer gostemos ou não, graças ao YouTube, não há mais lugares secretos.

- E, em outros casos, eles desejam apenas se defender do perigo em potencial, entre outras razões.

O que acontece quando as pessoas são tidas como enganadoras?

Elas são expostas publicamente de maneira brutal e vergonhosa.
Elas perdem a reputação e a credibilidade, pelo menos, em paises civilizados. Não foi o que aconteceu a Richard Nixon, ex-presidente dos Estados Unidos?
Elas perdem os amigos. Daí a observação de Gracian, “É tolo quem não conhece os tolos, e mais tolo quem, conhecendo-os, não os descarta. São perigosos para o convívio superficial e perniciosos para confidentes”.
Elas formam um comportamento vicioso e ignóbil. Portanto, não saberiam viver de outra maneira, a não ser mentindo e enganando. O engano é parte integrante de sua natureza.
Elas podem sofrer penalidades legais, inclusive a prisão. Um bom exemplo é o caso do banqueiro de Wall Street, Mardorf, conhecido mundialmente, condenado a 150 de prisão e vivendo atualmente em sela de prisão com um traficante de cocaína. Uma realidade que ele certamente jamais pensou – arrastado de um milionário apartamento para uma cela de prisão.

No mundo moderno, onde a informação viaja livremente por todos os continentes a um simples clique de um mouse, “a transparência nas relações humanas não é mais simplesmente desejável”, como observaram Warren Bennis, Daniel Goleman e Patrícia Ward Biederman, em seu trabalho, “Transparency”, 2008, “ela é uma questão urgente, prioritária, uma questão de sobrevivência e cada vez mais importante”. Portanto, sem transparência, a sociedade se torna inviável, as relações humanas se tornam caóticas, os homens e as mulheres adoecem e os homens se tornam lobos para outros homens, na linguagem do filósofo francês Voltaire.

Caro leitor, reconheço que a verdadeira transparência é rara e que ela existe apenas num mundo ideal. Entretanto, isso não significa que não lutemos, diariamente, pela verdade, franqueza, integridade, honestidade e ética em todos os nossos relacionamentos. Sim, devemos empreender esforços para tornar o mundo um pouco melhor – as empresas, onde trabalhamos; as universidades, onde estudamos e pesquisamos; as instituições filantrópicas, onde retribuímos à sociedade o que ela nos deu; os lares, onde moramos e educamos nossos filhos; e, nós mesmos. Sem essa mudança interior, é impossível sonhar e construir uma sociedade melhor e mais digna. Somente a mudança de nosso caráter é capaz de viabilizar uma mudança genuína. A transparência somente existe e sobrevive quando todos a praticam.

Agora, você me perguntará: Como posso me defender do engano e do enganador?

Eis, aqui algumas recomendações para a sua reflexão e crítica que, se colocadas em pratica, poderão lhe salvar da mão do passarinheiro:

o Nunca acredite na primeira informação que ouve ou lê. Portanto, consulte sempre mais de duas fontes. Percebemos a maturidade de um indivíduo pela demora no acreditar. “A mentira é muito comum, seja, pois, incomum a credulidade,” advertia Gracian; “O simples dá crédito a cada palavra, mas o prudente atenta para os seus passos”, observou o sábio judeu, Salomão.

o Procure o conselho e a opinião dos sábios. Sem entendimento, quer próprio ou emprestado não se pode viver em liberdade e com sabedoria. Portanto, lembre-se que pedir o conselho dos homens sábios não diminui em hipótese alguma o seu real valor e grandeza; muito pelo contrário, aconselhar-se bem constitui uma prova dela. Guarde em sua mente e coração, as palavras de Salomão: “A língua dos sábios é saúde”; “Os lábios dos sábios derramarão o conhecimento”; “A doutrina do sábio é uma fonte de vida para desviar dos laços da morte;” “Onde não há conselho os projetos saem vãos, mas com a multidão de conselheiros se confirmarão”.

o Cuidado com quem alardeia defender a causa alheia, quando no íntimo estar a defender a sua própria causa – os seus próprios interesses. Contra a astúcia e o engano destes, a melhor defesa é o cuidado. Portanto, não se deixe seduzir ou enganar pelo seu discurso por mais eloqüente que seja. Ele deseja apenas tirar proveito das pessoas crédulas e de boa índole. “Examinai tudo. Retende o bem”, ensina o discípulo maior do cristianismo, São Paulo.

o Mantenha-se sempre bem informado, a fim de não ser enganado. A maioria das pessoas é enganada simplesmente porque não cultiva o hábito da leitura de revistas, jornais e livros, não estuda, não pesquisa e não conversa com especialistas sobre assuntos de seu interesse. Consequentemente, aceita as coisas como lhe são apresentadas e sem nenhum questionamento mais aprofundado. Algumas pessoas comentou Gracian, “São como vasilhas de barro novas que ficam impregnadas com o primeiro odor que as toca, quer seja bom, quer ruim. Quando tal pobreza chega a ser conhecida, torna-se perniciosa pois dá pé a maquinações maliciosas; os mal-intencionados fazem tudo por tingir de sua cor a credulidade. Haja sempre lugar para revisões; haja lugar para a segunda e a terceira informação. Impressionar-se demonstra incapacidade e chega perto de apaixonar-se”.

Recentemente, adquiri e li um livro sobre “Inteligência Mercadológica”, cujo autor afirma que “identificou um tipo de inteligência que batizou de inteligência mercadológica” (pág. 3) e que “desenvolveu esse conceito, cunhando um novo termo, como extensão das teorias mais modernas sobre inteligências múltiplas de Howard Gardner e inteligência emocional de Daniel Goleman” (Pág. 5).

Como muitos devem saber o conceito de inteligência mercadológica, “marketing intelligence”, não foi identificado e muito menos, cunhado pelo autor. Por outro lado, não existe nenhuma semelhança entre as obras, mundialmente conhecidas e consagradas, de Howard Gardner e Daniel Goleman. O termo é utilizado nos textos de administração desde 1920. Portanto, nada mais distante da verdade e do rigor intelectual que deve balizar o trabalho de quem escreve. Qualquer estudante de administração, por menor que seja o seu conhecimento de marketing, sabe que a afirmação do autor é no mínimo fantasiosa, para não dizer enganosa. Sugiro que o leitor visite o site www.pensandomarketing.com e leia na íntegra o artigo do executivo de marketing, Marcos Dutra, sob o título “Falta de Inteligência Mercadológica”.

* Pense de maneira diferente. Questione tudo com coragem e polidez. Não seja um conformista. O profissional que alcança o sucesso, não importa a sua área de atividade, é aquele que se distingue em tudo e de todos os outros ao seu redor. Ele tem novas idéias e sabe visualizar abordagens criativas a problemas. Tem a habilidade e a vontade de pensar e agir com independência e autonomia, sem se importar se for censurado ou ridicularizado pela MAIORIA por suas idéias e ações não conformistas.

Infelizmente, como escreveu o bem-sucedido empresário norte-americano, J. Paul Getty, 1892-1976, “Nos negócios, a mística do conformismo está exaurindo a individualidade dinâmica, que é a qualidade mais inestimável que um executivo ou empresário pode ter. Ela produziu a figura inerte, ilusória do Homem da Organização que tenta em vão esconder seus receios, falta de confiança e incompetência atrás de uma fachada estilizada de conformismo. O conformismo não é nato. É feito. Acredito que o processo de lavagem cerebral comece nas escolas e faculdades. Muitos professores parecem resolutos em imbuir seus alunos com o desejo de alcançar SEGURANÇA acima de tudo – e a qualquer preço”. E, em outro trecho do mesmo discurso, afirmou: “Existem muitas outras pressões que forçam o jovem profissional de hoje a ser um conformista. Ele é bombardeado de todos os lados por argumentos de que ele precisa trajar-se, literal e figurativamente, de acordo com a imagem alinhada do momento, o que significa que ele precisa ser igual a todo mundo.”

Eu, particularmente, tive muita sorte com a educação que recebi de meus pais e, posteriormente, nas escolas que freqüentei. Nunca me esqueço das lições que recebi de meu pai, “Nunca deseje ser igual aos outros, meu filho”; “Quando você entrar numa discussão certifique-se de que se preparou e procure travar o debate com o mais inteligente e poderoso. Você não tem nada a ganhar em discussão com homens medíocres e incultos”; “Nunca se acovarde, meu filho, se souber que vale a pena lutar pelas suas idéias e opiniões,” entre tantos outros conselhos.

Hoje, passados quase 50 anos, eu compreendo o valor e a utilidade de seus conselhos. Daí porque não tenho medo de verbalizar minhas convicções e valores. Aprendi que o homem que não abdica de sua individualidade, logo ascenderá ao topo de sua profissão. E, se não acender, deixará um legado de ousadia, coragem, destemor e convicções fortes.

Caro leitor, não se deixe enganar, principalmente por aquelas idéias que parecem ser modernas. Se você pesquisar, logo descobrirá que seus autores estão colocando remendo novo em pano velho. Não há novidade alguma em suas idéias e livros. Um bom exemplo dessa minha afirmação, é a noção de carreira como negócio próprio. Ela tem apenas 2.900 anos – “O empregado não trabalha para seu empregador. Ele trabalha para si mesmo”. Em meados do século XIX, ela ressurgiu nos trabalhos de Orison Swett Marden e, no inicio do século XX, com a afirmação de Thomas Watson Sênior, fundador da IBM, “VOCÊ LTDA”. Tom Peters, William Bridges, entre tantos outros consultores simplesmente requentaram um conceito milenar e ficaram milionários. Tudo às custas de profissionais que não estudam, não pesquisam e não se mantêm bem informados. Portanto, lembre-se: não há nada que o proteja mais do engano do que o manter-se bem informado.

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