August 12th, 2009

A Morte do Caráter

Por Gutemberg de Macedo

Assistimos perplexos a agonia e morte do caráter. Não há nenhuma dúvida sobre o elevado grau de putrefação dos costumes políticos do país. A corrupção, como uma lampreia, vive nas profundezas de nossas instituições, faz delas o seu lar e alimenta-se com tal desenvoltura dos cofres públicos até que não sobra absolutamente nada, a não ser a ignorância endêmica, o cinismo, a descrença, a alienação e a miséria humana em todas as suas formas.

O eloqüente padre Antonio Vieira em sermão do bom ladrão, Lisboa, 1655, retratou essa realidade nas seguintes palavras. “Não só são ladrões os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa, os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam”.

E, em outro trecho do mesmo sermão, acrescentou: “Diogenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens viram que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos… Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter roubado um carneiro; e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província”.

Em linguagem atualizada, referindo-se aos atuais senadores, Demóstenes Torres, senador pelo estado de Goiás disse: “Nós temos de dar um basta nisso. Figuras menores; figuras que vêm aqui com o único objetivo de enriquecimento pessoal, e não defender os interesses da sociedade”. (Revista Veja, “O passado assombra o senado”, páginas 51 – 58, 12 de agosto de 2009).

É bom destacar que a falta de caráter, não se restringe apenas aos poderes constituídos – o executivo, o legislativo e o judiciário. Ela está presente também nas instituições acadêmicas e religiosas, nas organizações sem fins lucrativos (Ong’s e Fundações), empresariais e sindicais.

Na linguagem teológica: “Não há um justo, nem um sequer. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. Em seus caminhos, há destruição e miséria”.

O nível de corrupção e imoralidade nos dias atuais pode ser comparada ainda àquela descrita no primeiro livro histórico do Pentateuco, Gênesis: “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Tamanha era a degeneração do ser humano que o próprio Deus se arrependeu de tê-lo criado e o colocado sobre a terra”.

A realidade nos é posta nua e crua todos os dias. Entretanto, convém destacar as causas da morte do caráter, pois se não soubermos identificá-las, a fim de combatê-las com coragem e determinação, poderemos ser destituídos de nossos direitos e até mesmo de nossa própria liberdade. É preciso ficar atento, pois os corvos estão soltos.

A sábia advertência do renomado dramaturgo, poeta e encenador, Eugen Berthold Friedrich Brecht, 1898-1956, pode nos servir de alerta: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio, dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.

No Brasil, eles não são apenas 300 como declarou o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Eles são trezentos e um (301).

Neste artigo, gostaria de identificar alguns dos fatores que têm contribuído para o trágico assassinato do caráter nacional.

A propagação e difusão da filosofia utilitária que diz: “Não há valores permanentes e absolutos”. “Tudo é fluido e flexível”. Não há verdade e nem mentira. Este relativismo moral assume que os padrões morais são inteiramente fundamentados em costumes sociais, variam de cultura a cultura, momento a momento, circunstância a circunstância.

Para aqueles que desejam transformar o errado no certo, a melhor maneira de conquistar seus objetivos é convencer a juventude de que o vulgar é bonito e tudo é permitido. Quem não se lembra das célebres frases: “Caixa dois é dinheiro não contabilizado”, “Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum” e “Não é um problema meu [a permanência de Sarney]. Eu não votei para eleger Sarney presidente do Senado nem votei para ele ser senador do Maranhão…”

É bom dizer que o autor da frase aparentemente não sabe sequer que José Sarney é senador pelo Amapá e não pelo Maranhão.

O que esses indivíduos esquecem, como frisou Oriana Fallaci, é que “a liberdade não pode existir sem disciplina, autodisciplina, e direitos não podem existir sem obrigações e deveres”. Aqueles, portanto, que não respeitam seus deveres não merecem os direitos que têm. Eles mais cedo ou tarde serão vítimas de ditadores cruéis e demagogos, ou pior, se transformarão no próprio ditador.

Capital financeiro impaciente e volúvel. Ele não tem pátria e, na maioria das vezes, não tem nenhuma ética. A sua preocupação é o fim – mais lucros, no menor espaço de tempo e não importam os meios utilizados. Para muitas organizações, a tão endeusada “governança corporativa” é mais uma cortina de fumaça para esconder os desmandos e práticas ilícitas e amorais. Quem quer que se debruce sobre alguns dos principais livros que tratam sobre “finanças” – “Irrational Exuberance” de Robert Schiller e “The Wolf of Wall Street” de Jordan Belfort, entre inúmeros outros, não deixará de constatar tal verdade. Vejam o conselho dado por Belfort a seus subordinados: “… Espero que todos estejam cientes de que, como corretores de ações, têm um dever para com seus clientes, uma responsabilidade fiduciária, por assim dizer, de falar ao telefone com eles assim que eu terminar meu discurso e fazer o necessário, mesmo que isso signifique arrancar seus olhos fora, para convencê-los a comprar o máximo de ações… É melhor enfiarem essas ações pelas goelas de seus clientes e deixá-los engasgados até que digam compre-me vinte mil ações, porque cada dólar que seus clientes investirem irá voltar para vocês em grande quantidade.

* Ética aventureira que nos foi legada pelos nossos primeiros colonizadores exploradores os quais na ânsia de prosperidade, como destacou Sérgio Buarque de Holanda em sua magnífica obra, “Raízes do Brasil”, primava pela fortuna sem custo, títulos honoríficos, posições e riquezas fáceis e cujas qualidades compreendiam: audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade e vagabundagem.

A corrupção chegou ao Brasil desde que as primeiras caravelas, aqui chegaram afirma o escritor e historiador Hernani Donato. Na defesa de sua tese, ele cita vários exemplos: o caso do capitão-da-costa Pero Capico, designado logo após o descobrimento pelo rei dom Manuel para evitar o desvio de seus direitos sobre o comércio do açúcar, do pau-brasil e de escravos. O funcionário veio em 1516 e voltou rico para Portugal dez anos depois, justificando aquilo que sobre as autoridades coloniais diria o padre Antônio Vieira (1608-1697): “Eles chegam pobres nas Índias ricas e voltam ricos das Índias pobres”. Alguns ministros de sua majestade não vêm cá buscar o nosso bem, mas sim os nossos bens. El-rei manda-os tomar Pernambuco, e eles se contentam com o tomar.

Consultado certa vez por Lisboa se o Maranhão-Pará deveria ser dividido em dois governos, o jesuíta foi caustico: “Não. Um ladrão num cargo público é mal menor do que dois”. Ainda no século 17, Fradique de Toledo Osório, ao prestar contas ao conde-duque de Olivares do dinheiro recebido para a guerra contra os holandeses na restauração da Bahia, explicou do seguinte modo o sumiço de 1 milhão de cruzados: “Foram gastos em missas às almas, esmolas e outras obras pias para que Deus nos desse a vitória, que muito mais valia”.

Egocentrismo exarcebado tanto na média quanto na alta gerência que cega os profissionais para as realidades que os cercam. Consequentemente, cada vez mais eles passam a viver em um mundo criado pela sua própria imaginação.

Estes profissionais egocêntricos podem andar, falar e sorrir como qualquer outra pessoa. Podem, ainda, até virar celebridades, ocuparem as páginas dos principais jornais e capas das revistas de negócio, mesmo assim, estão debilitados pelo seu crônico narcisismo.

Eis os motivos: eles passam a resistir à recepção de informações contrárias a alguma idéia ou imagem preconcebida que tenha de si mesmo. Na vida profissional, o egocêntrico supremo acredita ser mais inteligente do que todos os outros ao seu redor, que de alguma forma foi iluminado por alguma entidade superior para saber a resposta a tudo, que está no controle e os outros existem para serví-los. E, como acreditam sinceramente que nunca erram, eles se tornam uma ameaça constante aos homens e mulheres que precisam e trabalham sob sua malfazeja liderança. Em outras situações, eles agem como lobos predadores e devoram as pessoas ao seu redor.

A rápida disseminação e absorção da cultura Trash pela sociedade brasileira – degeneração moral, prostituição infantil, sexo, sensacionalismo, violência explícita e vulgaridade outras. “Estamos todos na sarjeta, escreveu Oscar Wilde, embora haja alguns olhando para as estrelas”.

Michael Legault em sua excelente obra, “Think”, afirma que a cultura Trash e seus patrocinadores parecem determinados a fechar o cerco e obstruir até mesmo as poucas frestas abertas para o céu.

A proliferação da cultura Trash não é um jogo de soma zero. Ainda existem livros, filosofia, arte e teatro por ai. Através da internet, as idéias de grandes escritores, filósofos modernos, colunistas premiados e cientistas brilhantes tornaram-se acessíveis a mais pessoas do que em qualquer outra fase da história. No entanto, é óbvio, que a supremacia da cultura ignóbil, promovida, principalmente, pelos meios de comunicação em massa, não é tão inofensiva quanto muitos críticos culturais querem fazer crer, adverte ele.

Seu alcance e imediação reduziram a percepção da cultura de qualidade, de idéias refinadas e da importância do pensamento crítico e criativo tanto para a nossa própria saúde e bem-estar, quanto das instituições democráticas. E, como falsos aforismos costumam lembrar-nos, a percepção é a realidade.

À medida que o arcabouço intelectual, necessário para perceber e avaliar o mundo começa a definhar e se fragilizar, passamos a confiar mais em ideologias, conhecimento adquirido, sabedoria convencional e fé cega para viver a vida. O efeito psicológico disso é uma tendência a construir carapaças para proteger nossa identidade, moldada a partir daquilo que nos contaram e de visões de mundo engendradas para nós. Procuramos nos afastar de discussões sobre assuntos desagradáveis”.

A pátria brasileira requer que todos nós cidadãos capazes de desafiar o Status quo, a propaganda desavergonhada de governos ignorantes e comprovadamente demagogos e corruptos, abramos a nossa boca e gritemos contra esse estado de coisas. Afinal, o país precisa de uma nova estirpe de homens. Homens com coragem, espírito crítico, comprometido com valores como a verdade, a honestidade, o trabalho duro, a responsabilidade, o respeito a individualidade, a igualdade de direito e deveres, a honradez, o caráter e, sobretudo, cultos e preparados.

Se ficarmos calados, as próprias pedras clamarão, pois “há tantos burros mandando em homens de inteligência que às vezes pensamos que a burrice, a ignorância atrevida e a mediocridade são uma ciência”, como observou o jurista Rui Barbosa.

Não custa lembrá-lo, caro leitor, que a degeneração de uma nação começa pelo desvirtuamento de sua cultura e de seu caráter em todas as suas manifestações, inclusive nas redes de relacionamento fragmentadas e constituídas por laços fracos, frágeis e meramente interesseiros, cujos mantras são: “O que eu vou ganhar com isso”? “Leve vantagem em tudo o que você faz”, “O que é meu é meu e o que é meu é apenas meu”.

Assistimos a proliferação do comportamento e da filosofia dos gangsters. Infelizmente, ela está disseminada por toda a parte e certamente não é um comportamento novo. O jesuíta Baltazar Gracian, leitor profundo da natureza e psicologia humana advertia: “Atenção a quem chega de segundas intenções. É um ardil dos negociadores distrair a vontade para acometê-la, vencendo-a em convencendo-a. Disfarçam o intento para consegui-lo e põem-se em segundo plano para serem os primeiros no momento de agir”.

A inversão dos valores, a decadência das instituições, a filosofia barata de prosperidade e felicidade estão presentes em inúmeros momentos da história, independentemente de suas razões. Portanto, não havemos de nos conformar e aceitar o ferro nos forjando inconscientemente ou placidamente. Afinal esta é a luta do homem – que o bem prevaleça sobre o mal. Diante de tal quadro, qual é a saída? Este é o assunto do próximo artigo.

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