July 22nd, 2009

Abaixo a Hipocrisia! Ninguém Lhe Ama No Ambiente de Trabalho.

executive_boardroomPor Gutemberg de Macêdo

“Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo, e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam”.

Sermão do Monte

Nas últimas três décadas, o mundo corporativo foi inundado por um tipo de literatura que apregoa entre outras coisas, a espiritualidade, a humildade, a paciência, o perdão e o amor nas relações interpessoais como fórmula de sucesso pessoal e como saída para os inúmeros males que ameaçam e corroem essas mesmas organizações: escândalos financeiros e sexuais, líderes psicopatas que destroem os melhores sentimentos e as melhores intenções de seus liderados, a total falta de respeito à sociedade na qual estão inseridas, entre outros.

Somente na Amazon há mais de nove mil títulos que podem ser enquadrados nesse estilo como “Jesus o maior psicólogo que já existiu”, “O Sucesso segundo Deus”, “God is my CEO”, “Work as a Spiritual Practice”, “Church on Sunday, Work on Monday – The Challenge of Fusing Christian Values With Business Life”, “A Spiritual Audit of Corporate: A Hard Look at Spirituality, Religion, and Values in the Work Place”, “The Seven Habits of Highlly” Effective People”, “Servant Leadership”, “God and Globalization” e “The Servant (traduzido para português com o título O Monge e o Executivo). Esses são apenas alguns deles.

O crescimento dessa literatura se deve à inquietude existencial da maioria dos profissionais e também à procura de novas formas e modelos de gestão face ao esgotamento dos modelos existentes. A alma das organizações sucumbe rapidamente e a espiritualidade parece ser a nova fonte de criatividade nos negócios, na liderança pessoal e na harmonia social. A mensagem objetiva é: “empower”, ou seja, capacite o gestor espiritualmente e ele se tornará uma pessoa melhor. Além disso, o ambiente interno das empresas passará a ser mais humano e a sociedade, mais justa e igualitária. Para aqueles que não sabem, a espiritualidade tão enaltecida nos dias atuais é puramente secular. Ela não prima pelos valores básicos do cristianismo – sua doutrina e prática. É, portanto, um novo credo religioso, cujo eixo central é o próprio homem como a medida de todas as coisas – “The autonomous man”.

Em princípio, não tenho nada contra o discurso que apregoa a humanidade, a temperança, a compreensão e o amor no seio das organizações. Afinal, aprendi a valorizá-las muitos anos antes de seu modismo – no berço, na faculdade de teologia e na igreja. O que me deixa temeroso e reticente sobre o discurso da importância da espiritualidade é que, em vez de corrigir os inúmeros problemas existentes nas organizações como o egoísmo exarcebado, a falsidade, a deslealdade, a mentira, a psicopatia, a ambição doentia e o puxão de tapete, etc. ela acelere ainda mais o processo de descrença e cinismo entre os indivíduos.

O renomado “Bluesman” B. B. King em uma de suas canções mais conhecidas cantava: “Nodody loves me But my mother, and she could be Jivin’ too”. “(Ninguém me ama, excepto minha mãe, e ela pode enganar também)”. Certamente, não sabemos os motivos que o levaram a cantar com tamanha clareza o problema número um de homens e mulheres em todos os tempos, camadas sociais, níveis hierárquicos e instituições – a ausência do amor. Mas uma coisa deve ficar cristalina na mente daqueles que desejam empreender uma carreira profissional de sucesso: “Ninguém irá amá-lo no ambiente de trabalho”. Se você espera que esse sentimento nobre seja expresso em ação verdadeira no dia a dia das organizações, você não irá a lugar nenhum. Não se deixe enganar pelo discurso da espiritualidade secularizada, pois além de vazio, ele em nada difere de outro muito repetido: “O homem é o nosso asset mais importante”. Espere até a próxima crise e verá a sua prática em curso por meio de mais demissões.

Esta realidade pós-moderna foi sumarizada por Guinness nas seguintes palavras: “Under postmodern conditions, words lose their authority and become accessory to images. The past is no longer a heritage, but a debris-strewn ruin to be ransacked for a bric-a-brac of beliefs that is as incoherent as it is inconsequential…. The grand flirtation with the meaninglessness of modernity goes on, but in a party mood. Religion is no longer transcendent, but a recreational pursuit for the connoisseurs of “spirituality”. Art, homes, life-styles, ideas, character, self-renewal, and even belief in god all become auxiliary to sales and the ceaseless consumption of styles”.

Sim. É uma verdade insofismável: a medida em que o profissional avança na hierarquia corporativa, mais e mais encontrará o jogo político e a competição. E, quanto mais elevado for o nível dos profissionais, menos amor e mais interesse pessoal dominará seus pensamentos, decisões e ações. Portanto, não se engane: “The organizations rethoric could be Jivin’ too”. Será que alguém já viu um profissional promovido abdicar da merecida promoção e a transferir para um colega de trabalho que ele “ama”?

Nesse ambiente puramente comercial, o melhor que você pode fazer é compreender que a empresa não é uma entidade espiritualizada e movida pelo amor. Seu objetivo é “fazer” dinheiro. E a princípio isto não é bom nem é ruim. Entender esta neutralidade poderá lhe abrir a mente e alertá-lo que só se deve esperar da relação de trabalho um contrato que prima antes de tudo o ganho – de preferência de ambas as partes. É uma troca financeira, não necessariamente afetiva, e muito menos espiritual. Assimilar essa neutralidade é realizar com dedicação aquilo que lhe foi confiado. Em contrapartida é ganhar espaço, liberdade e respeito para executá-lo. Quem não é capaz de contribuir para que esse objetivo se concretize está fora do jogo. Não há “amor” que o segure, mesmo que você seja genro do dono do negócio.

Seu relacionamento com a empresa deve ser puramente comercial. A empresa paga para que você coloque à disposição sua inteligência, seu talento, sua competência, seu conhecimento, sua educação, sua atitude, seu trabalho e sua experiência, entre outras coisas. Em contrapartida, você se esforça para corresponder as expectativas da organização que acreditou que poderia fazer seu trabalho com dedicação e excelência. Acenar ou atribuir o êxito das correntes espiritualistas para a pacificação no trabalho não é uma abordagem inusitada. São modismos que vão e vêm. Dependem dos anseios sinceros de uma geração. Mas frequentemente é acompanhada também pelo oportunismo de mercado: “vender filosofia”. Paz e amor no refrão dos hippies. A humanidade do trabalho não tem relação direta com estas correntes, até mesmo porque o que assegura o mundo dos negócios sempre foi a jurisprudência, que mesmo tendo leis arcaicas ainda consegue, em parte, disciplinar o caótico relacionamento de empregador e empregado, de empregados entre si e das relações com clientes, de fornecedores e acionistas. Bem distintos das relações familiares ou sociais, o que regula o trabalho é a lei, apesar de nem sempre ser cumprida e atualizada frente às complexidades e particularidades de cada país. Portanto, a humanidade daqueles que executam o trabalho é fruto de diversos aspectos macros tais como as evoluções culturais, econômicas e sociopolíticas de qualquer sociedade.

Mas acreditar no lirismo das boas intenções, confundir laços afetivos com laços profissionais, desejar trabalhar em uma “igreja” onde todos comungam os mesmos princípios é de certa forma se distanciar da realidade e buscar talvez o refúgio para satisfazer necessidades emocionais não saciadas em outros grupos ou meio social. Daí tanta frustração, tanto distanciamento das responsabilidades práticas do trabalho e tanto desperdício de tempo e de entendimento. A humanização do trabalho passa por este viés: compreender o seu próprio ambiente e qual o seu papel nele. E se isto ocorrer, o respeito, a satisfação e a realização estarão muito mais próximas e muito mais atingíveis do que aquela prometida na “grande família”

Quando esse contrato comercial deixa de ser benéfico para ambos, o melhor mesmo é procurar seu espaço em outro lugar, em vez de esperar que seu superior ou organização lhe socorra com o tão falado “amor”. Cuidado, pois esse “amor” pode ser como aquele do amante que mata por “amor”. Como aconselha David F. D’Alessandro, ex-chairman e CEO da John Hancock Financial Services: “Grow Up! Your Boss is not Your Mom or Dad”. “(Cresça! Seu chefe não é seu pai ou sua mãe)”. E, eu acrescento: seus pares não são seus irmãos e seus subordinados não são os seus filhos.

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Gutemberg é consultor de carreiras e escritor consagrado.

www.gutemberg.com.br

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