July 18th, 2009

Mulheres e o preconceito nas empresas: uma reflexão não muito feminista

tiredexecutivePor Milene Laube —

Muitas mulheres atribuem o Glass Ceiling (dificuldade enfrentada pelas mulheres em atingir cargos de liderança nas empresas) a preconceito. Em parte deve ser mesmo, mas acho que vale uma reflexão um pouco mais profunda sobre o processo de ascensão e queda das mulheres no mundo corporativo.

Quando a mulher decide pela carreira, geralmente está nos seus vinte-e-poucos-anos. Não são muitas as suas preocupações pois é jovem, cheia de planos e esperanças e, em situações normais, tem apoio emocional e suporte da família. No início de carreira, homens e mulheres têm praticamente os mesmos desafios e as mesmas oportunidades. Elas trabalham com afinco, trazem resultados, são efetivadas, promovidas, recebem aumentos salariais, rótulo de high potential e muitas vezes avançam na carreira mais rapidamente que seus pares do sexo masculino. Eu passei por isso e também pude testemunhar a evolução de muitas moças com quem trabalhei, colegas e subordinadas.

Vale aqui um parada para reflexão. À medida que subimos no Corporate Ladder, o caminho vai se afunilando, os degraus vão se estreitando e as regras da competição evoluem de competências técnicas para competências gerenciais, às vezes mais subjetivas. Formação, experiência e histórico de resultados continuam sendo valorizados, porém outras habilidades e competências passam a ser decisivas para a profissional assumir cargos de liderança. São questões que não aprendemos na faculdade, mas sim, na escola da vida. Dentre elas estão: habilidade política e de fazer alianças, controle emocional em situações de stress, saber lidar com frustrações, compreensão das interações no ambiente organizacional e, acima de tudo, saber inspirar a fazer (ao invés de fazer).

Voltando à trajetória da mulher, notamos que a vida continua, independente do seu sucesso profissional. Os pais envelhecem, adoecem e se vão. As baladas viram namoro sério e casamento. Filhos nascem, trazendo alegrias e desafios. A vida fica bem mais complicada. Hormônios à flor da pele, ruguinhas aparecendo, o corpo muda, o bebê não dorme à noite, faz falta um colinho da mãe, a criança com febre de novo, a descoberta de que o príncipe encantado tem um lado sapo, a empregada que se demite justo na semana de apresentação do Budget, o chefe que nunca compreende…UFA! Por mais inteligente que seja, a mulher é naturalmente mais emocional que o homem padrão. O nível de preocupação e suas reações para estes desafios são muito diferentes das reações masculinas.

Enquanto os homens lêem mais, cultivam seu networking, saem com amigos, jogam futebol, golfe, contam e riem de piadas, mantêm sua auto-estima, demonstram mais controle emocional (ou pelo menos suas reações são mais aceitas pela sociedade) e, muito importante, deixam os problemas de casa, em casa, as mulheres, sentem que precisam resolver tudo. Além de entregar resultados para a empresa, têm que segurar as pontas em casa, educar os filhos, salvar o mundo da poluição fazendo compras com ecobags, resolver os problemas dos irmãos, ajudar os pais (pois alguns estão doentes ). Enfim, acabam se isolando e focando em getting the things done .

Com isso, a mulher perde o contato com a realidade corporativa e começa a sabotar sua carreira. Isso mesmo, auto-sabotagem. Por puro stress, a assertividade evolui para reações agressivas com chefes e colegas, deixa de negociar e começa a exigir promoções e aumentos, (“afinal estou me matando de trabalhar!”) e chega até a adoecer por burn-out. Vivendo um turbilhão de emoções cada vez que chega ao escritório, esta mulher perde o engajamento e passa a carregar a bandeira da “injustiçada”, evidente através do seu olhar, do cinismo em certas colocações e dos desabafos no lugar errado e com as pessoas erradas do escritório.

É nesse momento que prevalecem os interesses dos stakeholders (não da mulher da qual estávamos falando) e o colega homem, que está no lugar certo, no momento certo e com a atitude certa, ganha a promoção e passa a ser o chefe.

Acho que todos nós já vimos este filme, não?

Porém, nem tudo é tragédia, e este quadro não é uma regra, afinal existem Diretoras, Presidentes e Empresárias com bastante sucesso! Seria legal ouvir o que estas mulheres têm a dizer sobre preconceito, pegar a opinião de seus pares e chefes, enfim, conhecer suas características, traços de personalidade, atitude e comportamento em situações de pressão, além é claro das conseqüências de suas escolhas e sacrifícios (que não são poucos) feitos pela carreira.

Por fim, um último ponto para reflexão: “não ser o chefe” pode ser algo muito bom para a vida de algumas mulheres.

— Milene Laube é uma executiva e consultora de marketing com  grande experiência em multinacionais de produtos de consumo.

www.milene.org

Blog . Carreira . Colunistas